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THALES BISPO: O ARTISTA - ARQUEÓLOGO E A ESCAVAÇÃO DO INVISÍVEL (por Marcel Fernandes, primavera de 2025)

  • Foto do escritor: H-AL | Arte têxtil
    H-AL | Arte têxtil
  • 11 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A obra de Thales Bispo nasce de um encontro profundo entre o território e o gesto. Seu trabalho se alimenta da escuta atenta — do vento, das marés, dos ruídos cotidianos — e da observação das paisagens e vestígios materiais que compõem o litoral paranaense. É desse chão, que o artista reconhece como soterrado, tanto no sentido físico quanto simbólico, que ele extrai matéria e sentido para a pintura. Ali, onde o tempo se acumula e o esquecimento se deposita, a arte se torna um modo de escavação.


Esse enraizamento no espaço cultural também dialoga com uma questão mais ampla: o eixo Rio–São Paulo já não pode ser o único referencial da arte brasileira. Há uma produção potente e singular nas margens, onde a vida pulsa com sotaques próprios, matérias- primas particulares e modos de existir que não cabem nas vitrines da metrópole. Thales, nascido e criado no litoral do Paraná, é parte viva dessa mudança de perspectiva — um artista que afirma a força do local, do contexto cultural e da memória como eixos da arte contemporânea.


Os sambaquis são o ponto de partida de seu imaginário. Thales os compreende como monumentos erguidos pela repetição de gestos — morros de conchas que são, ao mesmo tempo, arquivo e corpo. Na concha ele encontra uma metáfora do próprio ato de criar: algo que abriga, protege e ressoa o mar. Ao utilizar a técnica da frottage, imprimindo as texturas calcificadas desses sítios sobre o tecido, o artista permite que o ambiente se inscreva diretamente na obra. “Depois que passei a pesquisar os sambaquis, a cultura caiçara e a pintura, nunca mais parei de pensar sobre isso. Coloco até numa condição de obsessão”, confessa.


Essa fusão entre vida e arte acontece de modo natural. As cenas que Thales presencia

— um grupo de biguás caçando, o voo de uma garça, o gesto do pescador lançando a

rede, um córrego que “sangra” em direção ao mar — tornam-se gatilhos poéticos. Ele recolhe fragmentos do real e os transforma em imagem, entendendo que viver e fazer arte é um só caminho possível.


Ao lidar com a memória caiçara, o artista também enfrenta as forças que a tentam apagar. Ele fala de um “litoral soterrado” — queimado, explorado, esquecido. Os sambaquis destruídos para virar cal, o avanço do turismo, a descaracterização das comunidades tradicionais: tudo isso atravessa sua obra. Sua pintura torna-se, assim, um gesto de resistência e denúncia, um modo de devolver à superfície o que o tempo e o descaso insistem em enterrar.


Mas se por um lado há denúncia, por outro há reconstrução. Na obra Produtores e reprodutores de memória, Thales revisita o passado não para congelá-lo, mas para reconfigurá-lo à luz do presente. Ele entende que o hoje também é memória caiçara

e que a arte pode documentar, reinterpretar e reinventar a paisagem cultural. Nessa perspectiva, suas canoas tornam-se símbolos de continuidade: da madeira escavada ao casco de fibra de vidro, o tempo passa, mas o espírito persiste. Cada pintura é uma forma de permanência, um elogio àquilo que resiste pela adaptação.


A textura de suas telas reforça essa ideia de tempo e lugar. Ao misturar areia, pigmentos e verniz, o artista cria superfícies porosas, quase arqueológicas, em que a imagem surge e se apaga lentamente. Suas obras parecem fragmentos desenterrados

camadas que guardam história, matéria e silêncio. A própria pintura se transforma em escavação poética.


Os materiais que Thales utiliza — madeiras de embarcação, cordas, conchas, restos recolhidos na praia — trazem consigo as marcas do uso e da vida. Ao incorporá-los, o artista preserva algo da “alma das coisas”, como ele próprio define: um equilíbrio entre a interferência e a escuta, entre o gesto do artista e a vontade do objeto. Nessa prática da pintura expandida, a tela deixa de ser um plano e passa a ser um campo de encontro entre tempos: camadas de areia, fragmentos de barcos e memórias ancestrais convivem com o gesto contemporâneo, costurando o passado ao presente.


Outro elemento recorrente são as aves-seres — como decidi chamá-las, e não o artista

que habitam suas pinturas e desenhos. Elas parecem pairar entre dimensões, como entidades ancestrais que sobrevoam o litoral invisível. São etéreas e corpóreas ao mesmo tempo — paradoxos que costuram o espaço-tempo e tornam visível o que o olhar cotidiano já não percebe.


Essas figuras aladas abrem caminho para pensar o modo como Thales redesenha o que entendemos por ancestralidade — uma linha que atravessa toda a sua pesquisa. Sua pintura faz emergir presenças que atravessam o tempo, resgatando a cultura sambaquiana, seus gestos, grafismos e símbolos. Não se trata de nostalgia, mas de um diálogo com o que permanece vivo. É o que alguns autores chamam de nova ancestralidade: uma reapropriação ética e criativa do passado que combina memória, práticas tradicionais e invenções contemporâneas, transformando os ancestrais em agentes do presente — conectando estética e espaço de pertencimento. É nesse fluxo, entre o passado e o agora, que Thales se move.


Essa dimensão do pertencimento também se manifesta quando o artista envolve a comunidade em seu processo. O retrato de “Seu Luiz”, pescador de Matinhos, é emblemático: ao se ver pintado, ele comentou, “pensava que só gente importante era pintada.” Essa frase diz muito sobre o gesto do artista — sobre devolver visibilidade e importância a quem sustenta, em silêncio, uma cultura inteira.


Entre o real e o imaginado, Thales recusa o exotismo e a idealização do litoral. O que ele propõe é o litoral vivido, das marés turvas, dos mangues e das memórias enterradas. Entre o gesto e o sedimento, ele pinta o que se perdeu — e o que ainda resiste. Sua obra se afirma como território em si: um espaço de recomposição, onde o tempo deposita, cobre e, aos poucos, revela.



Marcel Fernandes é artista visual, ceramista e poeta, autor dos livros "O Cochilo do Céu" e "Kepler-186F". É também Conselheiro Municipal de Cultura em Antonina, representando as artes visuais, cidade onde nasceu e reside.


 
 
 

1 comentário

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Stopinski
13 de nov. de 2025
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Excelente texto do Marcel, excelente trabalho do Thales! Sucesso!!

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